10.25.2010

sobre heranças

desde menina sou apaixonada por fotografia. tanto gostava de ser fotografada como gostava de tentar fotografar. quando eu era criança, por volta dos sete anos de idade, eu vivia me arrumando toda, colocava as pérolas da minha mãe, pintava a boca pequena de batom vermelho, e sentava feito moça, pra sair bem bonita no retrato. ironicamente, hoje é por acaso que saio mais ou menos bonita numa foto. haja pérolas e batom pra esconder as olheiras e o resto da cara feia, tsc tsc. anyway, eu lembro como se fosse hoje meu pai brigando comigo num passeio porque eu queria porque queria mexer na câmera, e como eu era pequena  e desajeitada, eu não sabia. felizmente hoje, já sei namorar, já sei beijar de lingua, e já sei manusear uma câmera. sinto um prazer desmedido quando estou atrás da lentes, quero dizer, eu e as câmeras temos um caso de amor antigo, no entanto, nunca fui além do amadorismo. acreditem, penso muito em transformar isso em profissão, mas nunca me levei muito a sério. 


meu gostar por fotografia é de família, herdei do meu avô paterno. segundo ele, na sua  época - quando ele começou muito jovem a trabalhar - não haviam fotógrafos, e sim retratistas. modestamente, ele conta que foi o primeiro fotógrafo jornalístico do estado, e que viajava o Brasil inteiro em busca de imagens únicas. ora ora, e eu que achava que meu avô era apenas um velho turrão, e que seu passado de fotográfo era algo monótono! ledo engano! Seu Antônio é um homem cheio de surpresas. e talvez por ele ser um homem de poucas palavras, eu nunca tenha me atrevido a compartilhar com ele minha paixão por fotografia. entretanto, a conversa tem surgido de forma natural ultimamente, e pelo que ouvi, ele era um homem que não arredava o pé de suas missões, e por ser assim, foi preso por registrar o que não devia. lutou contra censura e polícia, e acha muita graça ao contar suas peripércias de cabra-macho sim senhor. ganhou um prêmio por uma foto que chocou o mundo e saiu até em jornais internacionais. contudo, seu melhor registro pra mim, é uma singela fotografia anônima de seus dois netos brincando no seu quintal.


eu e meu irmão Raoni, há mais 25 anos.


olhando hoje pro meu avô, vejo nele um talento que foi deixado para trás para dar lugar a um homem rude. não sei porque cargas d'água, após se aposentar, ele não continuou a fotografar, ainda que fosse só por hobby. sei lá, acho que fotografar é algo que vai além da profissão, que vai além do dinheiro, mas vai saber o que se passa na cabeça de um velho turrão. ao menos herdei sua sensiblidade para fotografia, que bom pra mim.

meu avô de longe parece um velho teimoso sem muito requinte, mas de perto é  a síntese de todos os avôs: quieto, carinhoso, amável e cheio de boas histórias pra contar.
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13 comentários:

  1. uma vez me disseram que a alma da pessoa se despedaça e congela em cada fotografia.

    Às vezes vale a pena.

    a foto com o Raoni tá linda mesmo.

    eu tenho 21 anos. vc?
    mais de 25 (de acordo com a legenda da foto)?

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  2. queria eu ter ainda um de meus avós!
    e tenho certeza que vc deve sair linda nas fotos, assim como sai em palavras!

    bjo gata garota!
    :)

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  3. Todas as pessoas que conheço que eram ligadas a imprensa no período de censura e ditadura, se resumiram a poucas palavras. Talvez seu avô tenha parado de fotografar porque a profissão o impedia de fazer fotos de momentos felizes, e porque ele tenha sofrido as consequências do dever de registrar fatos.

    Mas gente muito calada e aparentemente rude, tem umas coisas bem legais guardadas na alma.

    Gostei do seu avô (:

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  4. E com cheiro de outono, aposto! (Pra mim os avôs cheiram a outono)

    Beijos, Lu! Linda foto, linda!

    ℓυηα

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  5. Amo foto em branco e preto ou preto em branco, nunca sei como se fala ao certo. Um dia vou ter uma máquina chique que tira 5 fotos ao mesmo tempo, sabe? Também tenho este amor amador...hehe


    Luna, nunca tive avô. Um não conheci o outro morreu muito cedo. Mas, deve ser legal ter um turrão do lado, só para tentar roubar um sorriso.

    beijos

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  6. Que graça de texto. Que graça de foto. Que graça de avô.

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  7. Não tenho boas lembranças do meu Avô paterno, ele literalmente não era flor que se cheire. Mas ainda tenho a presença do meu avó materno que vez por outra me ajuda com sua sabedoria popular a fazer meus estudos . Não sou como os outros netos que tem amor por fazenda e cavalos ou coisas do tipo, amor que ele tem mas tenho a oportunidade aprender dele e eu tenho isso como a herança dele pra mim !!!!
    Com relação a fotos minha mãe me ensinou de pequeno a mexer na câmera dela , hoje eu sei tirar fotos boas graças a isso. que bom !!!
    Bela postagem, abração pra vc !!!! :)

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  8. Sabe, no fim, a gente sempre tá na carência mesmo. O textinho foi desculpa minha para esquecer um chutinho que levei ahahuahauahauha

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  9. Nossa, fotografia também é um dos meus mais antigos amores! Hehe

    Quem sabe um dia...

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  10. fiquei com saude de meu avô, ele também era um homem rude, mas de uma alegria e jovialidade incomparável.
    talvez seu avô, tenha vivido e visto tanta coisa que se esgotou, mesmo assim uma baú de tesouros tendo seu valor.
    bjoo
    tbm amoo fotografar.

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- me concede uma dança?

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